Believing in Santa
Há três semanas, tive conhecimento dum anúncio de emprego para a função de Pai Natal, num shopping. Como sou bastante magro e um pouco marreco, candidatei-me. Pensei: nestes tempos de crise a magreza pode ser um trunfo, um pai natal anafado é um insulto a quem passa dificuldades. E a marreca promove o ar cabisbaixo que se adequa a uma época natalícia coberta de nuvens sombrias. Cheio de optimismo, portanto, fui à entrevista. Perguntaram-me: «O senhor tem muito espírito natalício?» Respondi cautelosamente: « Por 4 euros à hora, é difícil não ter.» Mas a minha vontade foi responder: «Sou um tipo pacífico, mas se alguém se atrever a dizer que possui mais espírito natalício do que eu, parto-lhe o focinho.» Perguntaram-me: «O que é que acha que faz um Pai Natal?» A questão é intimidante e, possivelmente, a mais difícil que já me fizeram. É um mistério a que ninguém consegue responder com exactidão. Apenas sabemos o que o usurpador de S. Nicolau faz na noite de 24 de Dezembro. Quanto ao resto, apenas podemos fazer suposições, autorizadas pelo bom senso, mas vagas e arriscadas… Lerá cartas de crianças? Dará ração às renas? Dormirá umas sonecas valentes? Será viciado em poker? Qualquer resposta menos ponderada podia significar o fim de uma bela carreira. Hesitei na resposta a dar. Saí-me muito bem: «o Pai Natal é como um político em campanha eleitoral. Dá beijinhos e abraços, faz promessas de presentes que não vai pagar, e quando a campanha acaba mais ninguém lhe põe a vista em cima».
As entrevistas de emprego são teatrinhos reconfortantes e previsíveis: os entrevistados sabem de antemão as perguntas, assim como os entrevistadores já conhecem antecipadamente as respostas. Algumas empresas de recrutamento atingem o requinte de propor nos respectivos sites as respostas aconselháveis e as que se devem evitar (nunca deixando de recomendar a maior das sinceridades, como é óbvio). Assim sendo, as entrevistas correm muitíssimo bem a todos os candidatos. Apenas um consegue o emprego, é certo, mas ficam todos com a sensação de dever cumprido, o que tem efeitos excelentes na auto-estima.
Dois dias depois, a empresa trabalho temporário enviou-se a seguinte mensagem: «Informamos que não foi o seleccionado para função de Pai Natal para o Dolce Vita. Manteremos a sua inscrição em aberto para futuras oportunidades que possam surgir. Agradecemos a sua colaboração e disponibilidade». Oportunidades que possam surgir… fiquei curioso…quais serão? Elfo? Burro de presépio? Coelhinho da Páscoa? Um verdadeiro manancial de possibilidades.
Há dias fui ao tal shopping, e vi lá o indivíduo que me roubou o emprego, já com bochechas e barbas postiças. Tinha um ar adulador e falso, e movia-se com a leveza de um jovem dançarino. Não exibia marreca. Olhava desejosamente para as renas semi-nuas, que pareciam manifestar cumplicidade. Observei-o com o ódio que me merece. Não voltarei a acreditar num Pai Natal.
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