O desencantamento de Dulcineia
Parece já estar tudo dito sobre a crise. Mas vou arriscar-me a perorar sobre a nuvem negra que nos cobre. E sobre um clássico da literatura. Sancho Pança promete auto-flagelar-se com três mil e tal chicotadas, o que irá desencantar Dulcineia del Toboso. E, com isto, prova estar à altura da mercê de ser governador da ilha de Barataria. Os sacrifícios valem sempre a pena. Como ainda não nos auto-flagelamos, apenas podemos aspirar ao privilégio de sermos governados pela troika.
Dulcineia vai permanecer encantada, e a culpa é toda nossa. No D. Quixote, todos os personagens se riem da simplicidade do escudeiro. Aqui, não existe este consenso. Alguns dizem que nunca as chicotadas poderiam desencantar Dulcineia, enquanto outros afirmam que estas apenas irão reforçar o encantamento. Há também sábios a murmurar que estas três mil e tal chicotadas não serão suficientes. (outros, mais cépticos, afirmam que a amada de D. Quixote nunca esteve encantada, e que o objectivo final era apenas ludibriar e humilhar o pobre Sancho).
No livro, D. Quixote, o maior beneficiário do desencantamento, acha perfeitamente natural que seja o seu escudeiro a suportar o peso das dores, e censura-o pela sua falta de gratidão e empenho. Aqui, o governo julga o mesmo em relação aos seus súbditos/cidadãos. No livro, Sancho, finalmente persuadido, exige ao seu amo um pagamento em dinheiro por cada chicotada. Aqui, por cada chicotada, pedimos dinheiro a crédito com juros altíssimos. No livro, o crédulo e manhoso escudeiro, sob o pretexto de preferir sofrer o peso do látego afastado do amo, aplica as chicotadas na carne das árvores de um bosque, enquanto emite gritos fingidos. Aqui, também abundam os sanchos alternadamente manhosos e crédulos (e são estas duas «especializações da cegueira» que explicam os nossos actuais descontentamentos). A diferença é a seguinte: os nossos verdadeiros amos são alucinados, é certo, mas não tão ingénuos como D. Quixote. Aqui, os gritos vão ser genuínos. No livro, são uns duques que encenam este episódio para se divertirem à custa da estupidez alheia. Sofrem apenas do tédio dos poderosos, suspeitam que um rei sem divertimento é um homem cumulado de misérias. Aqui, e no mundo, sente-se a perversão do poder no seu esplendor. Quem nos domina não o faz apenas por considerações de natureza pragmática e financeira, fá-lo para impor ainda mais o seu domínio. Jorge Luís Borges sugeriu, com o personagem Pierre Ménard, a insuperável perfeição do clássico «D. Quixote». O mesmo Borges também pensava, como eu, que o gosto pelo exercício do poder é um traço de infantilidade. Apenas uma pessoa insegura e medíocre gosta de ver o seu valor validado no espelho alheio da submissão. Somos governados por crianças perversas.
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Toda a comparação corre o risco de ser verdadeiramente compreendida, sobretudo, quando nos esquecemos de que é uma comparação. Haverá alguma diferença entre D. Quixote e Pedro Passos Coelho? Haverá alguma diferença entre a minha conta bancária (e o meu nível de vida) e a carne das árvores do bosque que terá sido chicotada por Sancho Pança? O que é brilhante, nas tuas palavras, não é teres encontrado uma boa comparação. É o facto de teres encontrado uma boa comparação, e isso fazer-me esquecer de que é uma comparação. Dá vontade de perguntar: Quixote (ou Pierre Ménard) lia o Expresso? Está bem. Admito que seja uma pergunta absurda. Vou tentar outra: este autor lia o Público? Espera. Acho que já sei: Ele via o telejornal da rtp?
Outra comparação: a dos governantes a crianças perversas. O que disse acima mantem-se inalterável. O sr. Pedro Passos Coelhos é uma criança perversa! Não vou insistir no argumento. Vou só dizer uma coisa: esta comparação levou-me a pensar em situações em que vemos grandes homens de estado «a brincar» com soldadinhos de plástico numa tenda. A única diferença é que, talvez, eu tenha cometido um erro: a palavra «brincar» não devia estar colocada entre aspas. Ou devia? Na perspectiva daquela criança, é provável que a sua perversidade lhe permita dizer que nunca esteve a fazer outra coisa senão a brincar que estava a brincar…
Este episódio parece-me a alegoria perfeita do que estamos a assistir neste momento. Perguntas se D. Quixote lia o Público ou o Expresso. Não lia, obviamente, mas não tenho dúvidas de que iria gostar. Há notícias de jornal mais fantasiosas e loucas do que os seus romances de cavalaria. Vou colocar uma hipótese ainda mais absurda do que a tua. Será que o nosso ministro das finanças e os senhores da troika leram o D. Quixote? Parece demasiado inverosímel, não é? Mas começo a suspeitar que estes senhores sabem mais de literatura espanhola do século XVII do que de finanças públicas.