O bom pobre e o mau pobre

No ocidente, vigorou durante séculos a distinção entre o «bom pobre» e o «mau pobre». O bom pobre era crente, humilde, não blasfemava, não bebia, e, acima de tudo, resignava-se à pobreza. O «mau pobre» era o contrário de tudo isto, e merecia passar o inferno aqui na terra como preparação para a penitência eterna que o esperava. Parece agora ter emergido a distinção entre «mau desempregado» e «bom desempregado», que recentes declarações do nosso presidente do conselho avivaram. O «mau desempregado» é o que teima no desemprego.  O «bom desempregado» é o que já o não é (porque entretanto partiu para o estrangeiro, ou morreu). Os maiores patriotas já não são aqueles que morrem pela pátria, mas aqueles que a abandonam o mais cedo possível.

Não sei se repararam, mas tem-se vindo a notar o recrudescimento de um discurso ligeiramente pessimista sobre a natureza dos trabalhadores. A seguir à última greve geral, o dirigente da Associação Empresarial do Minho, veio mesmo dizer que era desejável que os trabalhadores sentissem medo na relação laboral. As declarações deste Maquiavel nortenho fizeram-me pensar primeiro em Alexandre O’Neill(«e eu tenho medo, que é precisamente o que o medo quer»), e depois nas teorias x e y de um tal Douglas MacGregor. Resumidamente, a teoria x diz o seguinte: a maior parte das pessoas não gosta de trabalhar,  preferem ser dirigidas e evitar responsabilidades. Perante esta perspectiva, existe por parte do gestor a utilização da coacção ou da sedução (o velho e infalível método do chicote e da cenoura). Pelo contrário, a teoria y afirma que as pessoas gostam naturalmente de trabalhar, e aposta na iniciativa e no empenho para a resolução dos problemas de uma organização.

Parece-me que a grande maioria dos gestores portugueses estudaram afincadamente a teoria x, mas não tiveram tempo para passar brevemente os olhos pela teoria y. Claro que nenhuma destas teorias é verdadeira em si mesmo (estou-me a lembrar de algumas pessoas cuja única responsabilidade profissional que gostam de assumir é a de faltar ao trabalho).O problema da teoria y é o seu «lirismo». O problema da teoria x é o seu carácter circular: quanto mais aplicada for mais certa está. Se eu partir do princípio que os meus empregados são naturalmente indolentes e pouco dados à iniciativa, e quem tem de ser coagidos com mão férrea, a sua atitude vai-se adaptar a este modelo. É claro que são «convidados» a produzir. Mas o sermos convidados para uma festa não implica necessariamente que sejamos obrigados a sorrir quando o anfitrião não nos está a ver. A vantagem da teoria x  é que resulta facilmente em práticas saudáveis como ameaças, manipulação e assédio moral, etc. A maior parte dos trabalhadores é dada ao ócio, culpada portanto da crise e da falta da «produtividadezinha». Os trabalhadores portugueses são pois os culpados da crise. Cá dentro são preguiçosos. Lá fora trabalham muito bem, os sacanas.

Sobre bagaço

nobigdeal
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Uma Resposta a O bom pobre e o mau pobre

  1. joão pereira dos santos diz:

    Há um senhor, muito respeitável, que me parece que concordaria com a teoria laboral x. O seu nome é Donatien Alphonse François, mais conhecido por Marquês de Sade. Dar com o chicote no trabalhador, prometendo-lhe a cenora, é algo que não é nada preverso. Não fosse o marquês, um senhor muito respeitável. E devo dizer que, a mim, o teu texto não me provocou qualquer reação contra os métodos sádico-laborais. Ocorre-me, inclusivamente, um pensamento suave e puro: os patrões que metam a cenora na #&!# ! Filhos da p#&!# ! Enfim, achei que o texto é muito angelical.

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