Nova entrevista secreta a Cavaco

(Transcreve-se em seguida a solidária entrevista do Excelentíssimo Presidente da República ao Mindjacking)

MJ – O senhor Presidente disse recentemente que o dinheiro da pensão não lhe dava para pagar as despesas até ao fim do mês. E a justificação que deu posteriormente parece não ter acalmado os ânimos. Quer comentar?

EPR - Tenho vivido numa situação de pobreza envergonhada, como muitos compatriotas. Mas achei por bem dar a cara por este flagelo. Apenas quis ilustrar, com o meu exemplo, que sou mais um cidadão a passar dificuldades. Nunca me devia ter metido na política…

MJ – O senhor está arrependido de se ter candidatado à Presidência?

EPR – Ora se estou. Tantos sacrifícios que fiz para agora estou nesta situação. A solução era emigrar. Mas até essa hipótese me está vedada. As pessoas desempregadas ou com baixos rendimentos, sejam engenheiros, trolhas, executivos, putas, ou carpinteiros de limpos, podem ir exercer a sua profissão noutro país. Não sabem o privilégio incrível que isso representa. Um Presidente da República não pode ser Presidente noutra República… Cá temos outra situação de gritante injustiça…

MJ – Compreendo. Mas não lhe parece que existem portugueses numa situação pior do que a sua?

EPR – Obviamente. A minha Maria, por exemplo, tem uma reforma de 800 euros. Estou solidário com ela. Parece incrível, mas as dificuldades e as situações de desespero uniram-nos ainda mais.

MJ – O senhor fez muitos amigos ao longo da vida. Eles não o podem ajudar?

EPR – Coitados… Estão na rua da amargura. Todos dentro das grades ou fora do país. Olhe o Dias Loureiro, o Oliveira e Costa, o Duarte Lima… Nem me fale disso, quando me lembro disso vêem-me as lágrimas aos olhos.

MJ – Houve, recentemente, uma manifestação, à frente do Palácio de Belém, intitulada «Traz uma moeda pró Cavaco». Quer comentar?

EPR –  Olhe que isso deixou-me deveras comovido. Agradeço do coração todas as manifestações de solidariedade relativamente à minha situação. Esse dinheiro vai servir para pagar as dívidas na mercearia gourmet onde fazemos as compras. Já me estão a pressionar para pagar a conta. Até contrataram uma máfia de Leste…

MJ – Como é que encara a existência duma petição na Internet a pedir a sua demissão? E as acusações de insensibilidade social e de falta de ligação ao país real? Acha que tem condições para continuar na Presidência?

EPR – As pessoas responsáveis pela petição é que são insensíveis, querem mais um desempregado em Portugal. Por minha vontade, já tinha pedido a demissão, mas quero mostrar que sou o rosto de todos os que passam por privações em Portugal. Acusam-me de falta de ligação ao país real e aos problemas concretos das pessoas? É ridículo as pessoas julgarem que convivo apenas com ministros e assessores. Ainda no último dia de Reis recebi no Palácio de Belém gente do povo para me cantar as Janeiras! A entrevista pode ficar por aqui? É que já sinto alguma fraqueza. São três horas da tarde e ainda só comi um pastel de Belém…

Sobre bagaço

nobigdeal
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5 Respostas a Nova entrevista secreta a Cavaco

  1. joão pereira dos santos diz:

    Fiquei triste, quando soube que o nosso querido presidente passa por tantas dificuldades, e ao ler esta entrevista, devo dizer que fiquei verdadeiramente deprimido. Eu faço ideia! Coitado do Aníbal! Até tenho dificuldade em escrever um texto coerente sobre o assunto! Não, realmente, há assuntos em que não se brinca. Mas olha que o Aníbal, apesar de todas estas dificuldades, ainda consegue manter o sentido de humor! É extraordinário! Fala da sua grande desgrança como quem goza com o povo. Aquele sorriso estúpido e infantil é verdadeiramente admirável. Posso dizer que temos um homem de estado. Aníbal… Aníbal… O que seria de mim sem ti? Aliás, o que seria todo um povo sem uma cambada semelhante ao Aníbal?

    Insisto nesta mensagem: o Sr. Silva é um grande homem. Não consigo compreender que haja pessoas capazes de vaiar um homem como ele. Aníbal Cavaco Silva não devia ser vaiado. Graças às suas obras valerosas, este homem devia ser responsabilizado por tudo o que fez. A começar pela cagada quando foi primeiro-ministro… Até os pobres coitados, como ele, têm as suas necessidades…

    Tudo isto fez-me lembrar um poema do Pessoa (acerca de um outro infeliz):

    «Coitadinho
    do tiraninho!
    Não bebe vinho.
    Nem sequer sozinho…»

    Claro que não bebe vinho. A parca reforma do sr. Silva, e da sua legítima esposa, só deve chegar para um bom whisky, uma boa aguardente… O único vinho que ele deve beber será Vinho do Porto. Felizmente, tenho a impressão de que o IVA do vinho manteve-se a 13% (em vez de subir para 23% como aconteceu com produtos alimentares). É uma medida solidária para ajudar o Aníbal… Mas, a partir das notícias e desta entrevista, percebemos o que ele bebe em maior quantidade (tal como o António de que fala o Pessoa):

    «Bebe a verdade
    E a liberdade.
    E com tal agrado
    Que já começam
    A escassear no mercado.»…

    • bagaço diz:

      «O mundo compõe-se. Os pobres bebem em maior quantidade, mas bebidas bem mais baratas» G. M. Tavares
      É a única explicação: o dinheiro não lhe chega porque deve gastar tudo em pinga da mais rasca. Aliás a Maria também deve gostar. E depois ainda mistura a verdade e a liberdade ao carrascão… Deves saber que estas misturas acabam sempre mal, e às vezes, acaba-se por vomitar tudo com a televisão a filmar…

  2. Sim, considero que fizeste uma boa apreciação do estado de inconsciência (motivada pelo álcool, pelas drogas, ou simplesmente, pela falta de sono? fiquemo-nos pela inconsciência) que caracteriza os mais altos cargos da nação. Disse «altos cargos da nação», mas podia ter dito «grandes patifes desta coisa». Refiro-me, evidentemente, àqueles que têm engenho e a arte de roubar. Novamente, chamo atenção para a palavra «roubar». Toda a gente sabe que é nisso que consiste a vida da polis. Daí haver alguns que lhe chamem «política». Eu, como prefiro manter a eloquência e a formalidade do discurso, digo «roubar». Mas, evidentemente, tratam-se de sinónimos. O que pode gerar alguns equívocos, como por exemplo, quando ouvimos alguém dizer «Seu gatuno! Seu ladrão!», podemo-nos perguntar: o indivíduo está a referir-se a um árbito ou a um político? Temos aqui uma dúvida por esclarecer. Talvez possamos resolver este enigma quando compreendermos que árbito = político. Esta equação é válida, na medida em que ambas as criaturas (aposto que a zoologia anda a descobrir particularidades incríveis desta espécie!) são conhecidas pela superioridade moral. Ainda assim, no que toca a esta particularidade, o rigor da matemática exige que se diga que «árbito» é uma variável, «político» é uma constante…

    • bagaço diz:

      Para ser justo, convém dizer que nutro mais respeito pela arte de furtar dos árbitros do que pela gatunice dos políticos. Em primeiro lugar, roubam à vista de todos, por vezes com notável coragem pessoal, pois não ignoram que as pessoas se indignam mais facilmente com um fora de jogo ou penalty mal assinalado do que com o «desvio de fundos» por parte de um político. Em segundo lugar, os árbitros quando roubam entristecem uns, mas alegram sobremaneira outros. Ao contrário dos políticos que, ao roubar, prejudicam ao mesmo tempo adeptos do Porto, do Benfica e do Sporting. Uma coisa é certa, os árbitros roubam menos democraticamente que os políticos.

  3. Dizes que «(…) os árbitros roubam menos democraticamente que os políticos.» E dizes bem! Mas ainda há uma outra possível leitura deste fenómeno: ambos, tanto os políticos como os árbitos, roubam democraticamente. Isto porque os dois profissionais estão seriamente preocupados em roubar o seu povo. Daí a quadra de José Mário Branco em «Menina dos meus olhos» (1977):

    «(…) entram pelas casas sem ser convidados
    tempos de antena e outros futebóis
    ficaram todos mais bem informados
    opinião pública dos o…rinóis (…)

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