Isabel Fonseca, «Enterrem-me de Pé», Editorial Teorema, 2003
O livro, escrito por uma senhora chamada Isabel Fonseca (cidadã americana), é uma espécie de ensaio jornalístico dedicado à vida das comunidades ciganas no período subsequente à queda do Muro de Berlim. É um obra interessantíssima, que comprei por um 1 euro nos saldos. Os livreiros sabem valorizar as obras de qualidade.
A autora é uma «gadja» com coragem, pois passou umas temporadas entre as comunidades roma da Albânia, Bulgária, Roménia, etc. Na comunidade no seio da qual esteve a viver na Albânia não lhe era permitido realizar qualquer tarefa doméstica. Isabel, ou Za, era não só uma gadja (e portanto um potencial veículo de conspurcação da comunidade) mas também uma hóspede. Nem sequer lhe era permitido lavar-se a si própria. As boria encarregavam-se disso, enquanto conversavam e lhe beliscavam os seios, como se pertencesse a uma diferente espécie.
Esta obra está recheada de pormenores etnográficos e históricos sobre o povo menos obediente do mundo. A comunidade prevalece sobre o individuo na luta pela sobrevivência económica e cultural dos roma, sempre ameaçados, sempre desprezados, sempre temidos. Estes são exímios efabuladores, trapaceiros de nomeada, domadores de ursos, vendedores ambulantes e artistas da sobrevivência.
O genocídio dos roma nos campos de concentração nazi não é esquecido (como muitas vezes sucede), assim como não são esquecidos os séculos em que ciganos e escravatura se confundiam, nem os massacres de ciganos a seguir à queda do muro de Berlim. «Matar ciganos não é assassínio, é caridade…»
Agora são os ciganos a praticarem, com total conluio dos clãs a que pertencem, a escravatura.
E, no entanto, tal prática repugnante repetidas vezes ocorrida nos últimos anos merece o silêncio complacente dos sectores bem-pensantes da sociedade portuguesa…
É evidente que a escravatura é uma prática repugnante, quer praticada por ciganos ou não-ciganos. Nem pretendo sugerir que os ciganos são bons selvagens e que a sociedade é que os estraga. Mas penso que não são intrinsecamente piores ou melhores que os não-ciganos. É justo, se tivermos uma visão estritamente pessimista desta etnia, ter uma visão negativa do ser humano em geral. A história das relações entre ciganos e não-ciganos é uma história de desentendimentos de parte a parte, de violência, de desprezos recíprocos, em que a exclusão e auto-exclusão se confundem. Claro que muitos ciganos abusam das benesses que o Estado lhes dá, e do medo que inspiram ao resto da sociedade. Muitos vivem no crime e a maior parte na economia paralela. Mas a culpa não será também, em boa parte, nossa? Quantos não-ciganos dariam emprego a um cigano? Pode argumentar que eles nem sequer procuram, nem querem um emprego das 9h às 5h ( 5 e 30…peço desculpa). Mas que motivação tem para procurar um emprego que sabem que ninguém lhes vai dar? E, se existe silêncio complacente, é condenável, mas menos condenável do que a instigação do ódio, embora também possa provocar o ódio…